PRÓS
- Visual diferente de tudo que você já viu
- Sistema de combate violento e rítmico
- Três armas apenas, mas seus usos são diversos
- Trilha sonora mistura estilos como poucos conseguem
- Jogar no hard garante outro nível de diversão
CONTRAS
- Câmera fixa pode pregar suas peças
Por Rodrigo Brasiliense
“Está é uma história antes da história, antes do próprio tempo”. Quando um jogo abre com estas palavras, você imagina que ele está apenas criando em sua mente um palco para que você aceite o enredo que está por vir. Justo. Mas no caso de El Shaddai: Ascencion of Metatron, o aviso, ainda que similar, busca outra conotação: Àquela para que o jogador abra sua cabeça para uma viagem totalmente diferente do que habitual.
Religiosos fervorosos, corram para as colinas! Esta é uma história narrada por Lucifel (outro nome para o famoso Lucifer). Dando vida as não tão populares passagens do velho testamento que compilam o livro de Enoch, na história, você é o próprio, um escriba iluminado que desce dos céus para dar um jeito nos anjos que caíram. Se ele não der, bom, Deus irá e este é o problema. O Senhor do velho testamento não é tão bonzinho quanto o que conhecemos, e caso Enoch não coloque a casa em ordem, um belo de um dilúvio vai acabar com tudo que existe.
A parte interessante é que Enoch é um escriba, sabe? Cujo a habilidade principal é – sim --, escrever. Ou seja, o cara desce para a Terra desarmado com apenas coragem no coração. A primeira tarefa então fica clara, obter seu armamento. Em El Shaddai, tudo é simples, as ações do protagonista são limitadas a apenas um botão e ele nunca força seu raciocínio de uma forma muito diferente do que você já pensa habitualmente.
O que leva muitos a pensarem, prematuramente, que o título é uma daquelas famosas aventuras visuais. Não culpo quem cair nesta impressão, afinal, o jogo definitivamente é fora do comum até onde vai gráfico. Imagine que a tela pareça uma pintura, mas não uma pintura qualquer, àquela que ainda não secou e o menor toque e movimento transforma o retrato em algo totalmente novo.
Agora, pense que a descrição acima se aplica apenas a uma determinada sequência. O visual do jogo se altera a todo momento, todo segundo em certas fases, em estilo e intensidade, saltando de pontilhismo para impressionismo, do mais simples lineart e até mesmo a inusitada fractal art. Então, sim, considerando que falamos de um jogo extremamente simples cujo o visual brinca com sua percepção e senso de realidade, não da para culpar quem pense que o jogo é só isso.
Mas aí que você nota a genialidade da jogabilidade, quando um botão apenas para cada ação já é o suficiente para te guiar por alguns dos combates mais interessantes e sufocantes já criados nesta geração. Mais que atacar e defender, cada batalha em El Shaddai é uma dança no qual ritmo fala mais alto, quando atacar demais em desespero pode abrir sua guarda para aquele contra-ataque que te coloca no chão, ou defender demasiadamente faz com que você seja encurralado até se ajoelhar em submissão.
Para adicionar a todo o minimalismo, saiba que Enoch possui apenas três armas, ou melhor, ele tem acesso a três armas, porque trocá-las é questão de puxar das mãos do seus inimigos. O processo é simples, mas como tudo no jogo, não pode ser jogado. Basta você espancar um inimigo o suficiente de forma que ele mostre cansaço e então iniciar a tomada. Estas cenas, assim como os as finalizações, estão entre alguns dos pontos mais fortes do jogo, não apenas pela habilidade inusitada do herói, mas o pavor repentino na face dos oponentes que, do nada, percebem-se a mercê de seus próprios armamentos.
A diferença entre as três armas é vasta. A primeira é a Arch, um arco que se assemelha em uso com a clássica espada, a segunda é a Gale, uma espécie de anel em tamanho gigante que se desdobra em vários dardos guiados, e a terceira é o Veil, um escudo que ao mesmo tempo se transforma em um par de violentas luvas, garantindo o contraste entre a defesa absoluta e o ataque máximo. A única coisa que ambas tem em comum é o fato de que com o uso em sequência, estas se tornam impuras com o sangue do inimigo e devem ser purificadas, outro processo que precisa ser executado no meio dos combates e que exige atenção especial, porque é quando Enoch fica aberto para toda ofensiva.
E antes que alguém pergunte, não, o jogo não se trata de apenas batalhas. Toda essa sensação de se estar andando por um verdadeiro sonho acontece quase sempre quando você está desbravando os cenários e saltando por seus desfiladeiros. Nestas horas você se diverte pelo simples fato de que, bom, andar por estes ambientes já é algo diferente, com exceção de quando a câmera, sempre estática, se fixa naquele ângulo que não favorece nada, e você se encontra caindo duas vezes seguidas pelo mesmo buraco sem fim. Mas por sorte estes momentos são raros.
Então, se eu tivesse que realmente nomear o ponto fraco do jogo, não seria o fato de só haver três armas, ou mesmo dos inimigos serem repetitivos, mas sim estes momentos no qual a câmera simplesmente se recusa a ajudar, seja nos pulos rumos a morte, ou quando você tem a sorte de ficar naquele ponto cego da arena durante as batalhas. Não é crítico, mas poderia ser, caso os checkpoints não fossem generosos.
É o mesmo caso das batalhas. Por mais que os combates contra os inimigos possam ser divertidos, na dificuldade normal eles se tornam previsíveis e mergulhariam a aventura em um verdadeiro limbo. A questão é que não comentei a batalha contra os chefes, leia-se, os temidos anjos caídos, que, aí sim, fazem você pensar e repensar em todos os seus recursos para sobreviver contra poderes que claramente não vem do mundo material.
Não quero exagerar no spoiler porque, se nem os trailers do jogo fazem questão de mostrar os tão esperados embates, por que eu faria isto? Mas saiba que eles valem a pena, cada segundo, e cada morte em tentativa. Imagine só, que um dos ditos anjos, consegue se dividir em dois inimigos, cada qual que ataca independente do outro, forçando você nas artes das esquivas como em nenhum momento, até enxergar o determinado ponto que marca o contra-ataque.
Isto tudo enquanto a trilha sonora da eu show. Sério, existem trilhas e trilhas, e a de El Shaddai se destaca, assim como seu visual, como uma das mais inusitadas e bem compostas da atualidade, misturando Techno, solos de guitarra, instrumentos de sopro e até mesmo canto gregoriano de um jeito uniforme que poucos atingem, forçando uma sensação alienígena que é, ao mesmo tempo perturbadora e envolvente.
Entre o céu e a terra: El Shaddai: The Ascencion of Metatron não é a aventura puramente visual que muitos pensam ao primeiro contato com, mas -- e que este seja um mas muito grande --, ele valeria a pena ser terminado mesmo que fosse uma, o que praticamente já diz tudo, não? Junte isto ao fato do jogo definitivamente se transformar em outro quando jogado no hard, e você tem um título que garante dezenas de horas a fio.