PRÓS
Narrativa forte
Investigações inteligentes
Detalhamento soberbo
Qualidade sonora de primeira
CONTRAS
Bugs que podem irritar
Side-quests inúteis, muito inúteis
Sabe o que é melhor do que filmes abertamente baseados em grandes nomes da literatura ou história? Jogos cuidadosamente pesquisados e baseados nestes. É o que acontece com Sherlock Holmes vs. Jack The Ripper, jogo da Focus Home Interactive que, à primeira vista, pode parecer mais um devaneio de alguém, mas que pouco a pouco se revela muito mais que uma simples tentativa de se ganhar um pouco mais em cima das antigas celebridades.
Do lado direito, Jack - O Estripador, para quem só conhece de nome, foi o terror da parte pobre de Whitechapel, Londres, na qual ele atacava nas noites enevoadas, ao todo matando cinco mulheres das formas mais espalhafatosas que você puder imaginar (cortar a garganta era só o começo). Isso foi real, aconteceu em 1888. Do lado esquerdo, Sherlock Holmes, o maior detetive do planeta com um currículo de fazer inveja a todas as polícias combinadas. Isso é irreal, sendo na verdade criação do renomado autor britânico Arthur Conan Doyle.
Realidade e ficção se cruzam no jogo logo após Jack cometer seu primeiro assassinato. Sherlock e seu fiel amigo Watson se vêm interessados no caso após lerem o jornal da manhã. A fórmula do jogo em si é a que qualquer um que já embarcou em um adventure conhece: as pistas certas nas horas certas abrem espaço para a conclusão do caso. O que torna este diferente, na realidade, é o cuidado que o jogo teve ao ilustrar seu cenário irreal.
Foi pesquisado arquivos da polícia e relatos da época para que cada caso fosse recriado com o máximo de detalhes, de forma que Sherlock, o jogador, possa ligar de forma coesa os últimos momentos em que a vítima se debateu nas mãos do lendário assassino em série. Sendo assim, você tem acesso total às cenas do crime, que, não, não chegam a ser nojentas como devem ter sido na realidade. Nessas horas o jogo opta por um estilo mais cartunesco (e provavelmente o time de produção queria um jogo Teen).
O que se passa então são reconstruções das cenas amenizadas para não causar choque e desconforto. No caso da vítima que foi estrangulada e depois teve a garganta aberta, você encontra marcas nas laterais do pescoço e um forte risco vermelho indicando a abertura da pele. Os cenários também contam sua própria história com marcas e pistas que ajudam você a construir uma teoria perfeita sobre os acontecimentos. Estas teorias propriamente ditas você não forma com liberdade, mas escolhe de uma lista. Nada disso chega a deixar a investigação menos autêntica, tenha em mente, e você pode até voltar para a famosa casa de Sherlock na Baker Street para examinar documentos e testemunhos sobre os casos.
O que então poderia manchar esta experiência e criar aquela nota que você enxerga lá em cima? Bom, duas coisas, para ser sincero, entre outras que também poderiam ser melhores. Em um nível mais superficial, a programação do jogo. Como assim? Digamos que ele é instável e tende a travar com programas aleatórios. O pior deles é o próprio sistema PhysX, cujo jogo faz pouco uso. Dependendo da sua sorte (e do seu PC) você terá que reinstalar manualmente para que tudo funcione perfeitamente. Sério, cheguei até a pensar que fosse má sorte de alguém aqui da redação, mas, não, ouvimos relatos de outros sofrendo com o mesmo. Claro, isso se você estiver jogando no PC.
A segunda já está enraizada na própria jogabilidade. Esta é manchada pela infeliz escolha de colocar Sherlock em uma busca de inutilidades que apelam para o bom humor de NPC (personagens não jogáveis) importantes. Quer um exemplo? Você precisa de um arquivo que só certa pessoa tem. Esta pessoa precisa de determinada coisa para ficar satisfeita e te dar o arquivo. Só que a pessoa que tem o que o outro NPC precisa também quer que você busque algo para ela. Enxerga o problema? Em poucas palavras, essa tendência se arrasta por mais do que deveria e, sim, inspira uma baita preguiça.
Visualmente o jogo é simples, mas sabe recriar o clima nas embaçadas ruas de Londres e seus edifícios pós-vitorianos, misturando uma trilha sonora misteriosa e paciente à narrativa que se desenvolve com naturalidade (quando você não está preso em alguma side-quest inútil, claro).
Alterando a história com estilo: Sherlock Holmes vs. Jack The Ripper é uma suposição que dificultaria e muito a vida do lendário assassino em série em sua época. Colocando o jogador em uma caçada calculista e insólita, o jogo só não brilha mais por infelizes escolhas que se mostram entre as partes que realmente importam no jogo, matando parte da imersão e o interesse com atividades banais. Ainda assim, jogadores famintos pelos mistérios do gênero e os fortemente movidos por narrativas podem tentar este sem pensar duas vezes.