PRÓS
Jogabilidade forte e variada
Visual estupendo
Dificuldade (quase sempre) no ponto certo
Trilha sonora de dar gosto
Design dos inimigos
CONTRAS
Alguns ângulos de câmera complicam tudo
O jogo da dicas demais para seus objetivos
Narrativa se perde algumas vezes
Cenários poderiam ser mais interativos
Por Rodrigo Brasiliense
Cedo ou tarde, toda franquia precisa ser reescrita, um novo começo, novas experiências... Certo? Errado! Quer dizer, pelo menos para este que vos escreve, não é necessário reiniciar uma série para que esta apele para uma nova, ou melhor, maior audiência. Mas quem decide as coisas pelos lendários episódios de Castlevania é a Konami, e para eles foi chegada a hora de um recomeço – este chamado Lords of Shadow.
Castlevania: Lords of Shadow é a história de Gabriel Belmont, um membro da chamada Ordem dos Cavaleiros Sagrados que, após sofrer o assassinato de sua amada esposa, parte em uma jornada pela Europa em busca de uma máscara, cujo a lenda conta ser capaz de reviver os mortos. A viagem o coloca rumo a terras proibidas, onde aconteceram as secretas guerras necromânticas, e lá ele se encontrará com alguns dos mais interessantes mitos e seres imaginários europeus. O único problema, é que nesta história eles são muito bem reais.
Como sua primeira aparição em 1986, a recriação da franquia se da na forma de um jogo de ação puro, com elementos de estratégia e uma porção de mecânicas que servem para arredondar cada pequena rebarba e tornar a experiência algo longe da repetição que pode aborrecer tanta gente. Claro, este é sempre o plano, e na hora do vamos ver, nem tudo da certo com a formula mas, como vocês vão entender destas linhas em diante, o jogo tem muito mais coisas interessantes para mostrar do que decepções.
Você já pode ter visto por aí God of War 3, Uncharted 2 ou mesmo Gears of War 2, mas mesmo assim Lords of Shadows vai te impressionar, e isto porque o jogo não é só tecnologia e um bando de texturas muito bem pintadas, é arte e planejamento. O visual da aventura, de Gabriel e suas expressões longínquas, ao arco-íris e misturado a uma fantasmagórica névoa que decora uma simples cachoeira ao fundo da tela, o jogo é todo planejado para que, mesmo que você não possa explorar em total os cenários, preste atenção nestes mínimos detalhes, e conseqüentemente mergulhe na experiência.
Do início ao final, Castlevania é um jogo que introduz mecânicas de última hora e necessidades novas a jogabilidade, e enquanto isto funciona bem no começo, mais para o final ele tende a irritar, ou simplesmente atrapalhar. O sistema de batalha, grande foco do jogo, claro, é muito bem explicado do início ao fim. Você conta com um ataque curto, porém, forte, e outro amplo, porém bem mais leve, e neles alterna para descobrir as combinações para melhor subjugar as hordas de lobisomens, vampiros, bonecos de pano fantasmagóricos, golens imensos, enfim... vocês entenderam.
Fora os novos ataques comprados com a experiência de cada batalha, você é introduzido também ao sistema de magia, uma estratégia a mais que se divide entre luz e sombras. A magia da luz transforma seus golpes em ataques que recuperam sua energia, enquanto a da sombras dobra sua capacidade de destruição. Aí cabe ao jogador saber quando melhor utilizá-las, para sobreviver aos ataques das sombras.
Falo isto porque as batalhas do jogo não são fáceis. As grandiosas, principalmente, são divididas em dois tipos, as contra os seres gigantescos que você descobre durante o jogo – grandes lutas como as de Shadow of the Colossus, mas muito menos inventivas, no qual você escala as criaturas como verdadeiras sequências de plataforma até encontrar o respectivo ponto fraco, e as batalhas reais, que eu citei como difíceis ali em cima, nos quais os inteligentes chefes do jogo (não vou falar que são os Lords of Shadow, ops...) desafiam suas habilidades e conhecimento de cada ponto fraco e forte de Gabriel.
Também n quero dizer que estas, em momento algum, farão você passar raiva... quer dizer, a menos que você morra incessantemente, mas aí não é culpa do jogo. O que pode sim te dar raiva genuinamente, é a forma como o jogo dá informações inúteis que você muito bem poderia ter descoberto sozinho. Ao invés de confiar na formular e deixar para que o jogador se resolva, os desenvolvedores parecem ter ficado com medo de inspirar frustração, programando o jogo para sempre soltar uma dica óbvia nos momentos cruciais. Sim, até durante os quebra-cabeças, que como o nome diz, é para esquentar sua cuca mais que o normal, o jogo dá um jeito de facilitar e inspirar o óbvio.
Não que eu culpe o ser, ou os seres, que ficaram com medo de aborrecer o jogador. Falamos, afinal, de um jogo de aproximadamente 20 horas. A questão é que Castlevania sempre foi uma experiência bastante desafiadora que, acredito, não acabaria com o mundo de ninguém se continuasse a ser. Com isto, o tempo que os desenvolvedores passaram amenizando a obra poderia ter sido gasto em algo mais útil, como por exemplo tornar os cenários algo menos estático e mais interativo.
Como fiz questão de deixar claro, a narrativa do jogo é interessante sem se esforçar muito, e a beleza dos ambientes a sua volta é responsável por boa parte desta qualidade, porém, existem momentos em que as limitações desses acabam traindo a própria premissa do jogo, quando, devido a um ângulo infeliz, ou mesmo uma área que tinha tudo para ser acessível, mas que é na verdade uma parede invisível, te levam a uma morte patética e sem sentido.
E agora que tocamos no assunto da narrativa de vez, o jogo realmente não se esforça para deixar o jogador a par de tudo. Não, o novo Kojima Productions durante os créditos iniciais não significa uma abundancia de cenas e diálogos, pelo contrário, o jogo poderia até ter mais. Eu entendo que o pessoal da Mercury Steam provavelmente se voltou para uma homenagem ao clássico, tornando a jornada o principal, do que os muitos porquês, mas nada justifica o grande meio da história em que Gabriel simplesmente se distancia da história, quase como um protagonista silencioso dos antigos RPGs, para apenas voltarmos a acompanhar sua personalidade determinada mais para o final do jogo.
Mas apesar disso tudo, a história ainda é bem contada. As personalidades contratadas para dar vida aos personagens também cumprem à expectativa (apesar do script dar sim suas decaídas) e a trilha sonora se mantém forte por todos os segmentos, talvez não tão nostálgica quanto a maioria dos fãs gostariam que fosse, mas definitivamente inspirada no conflito principal e até portadora de engraçadas surpresas.
Ainda matando monstros que não pertencem a este mundo: Castlevania: Lords of Shadow, ainda que um reboot desnecessário, é um jogo cuidadosamente bem composto, daqueles que cada um de seus elementos conspiram para que você mergulhe e se encontre movido pela história. Sim, ele tem seus poços obscuros na forma de ângulos de câmera mal colocados, cenários que podiam ser mais interativos e até quebra-cabeças que não quebram realmente sua cabeça, mas tudo que ele faz de melhor, isto sendo – te arrastar para um mundo obscuro no qual apenas o impressionante repertório de movimentos do protagonista te salvará do triste fim, supera qualquer tropeço. Jogue e você entenderá.