PRÓS
Narrativa misteriosa e subjetiva
Altamente imersivo
Qualidade sonora impecável
Jogabilidade diferenciada
Efeitos de iluminação soberbos
CONTRAS
Visual pobre durante a manhã
Narrativa pode confundir alguns
Alan Wake é uma viagem diferente e, ainda assim, similar a o que você poderia esperar. Diferente? Bastante, mas é justamente esta dualidade que faz a tão sonhada (e adiada) obra da Remedy para Xbox 360. Com um enredo subjetivo, que se desprende de explicações, e uma coleção de citações mais que inteligente a algumas das melhores obras literárias de horror, o conto de Alan no vilarejo de Bright Falls tem tudo para conquistar até os mais céticos.
Depois de mais de cinco anos no forno, você já deve ter uma ideia do que se passa no título, mas deixe-me recapitular. Alan Wake, o cara que engenhosamente empresta seu nome ao título, é um escritor que se muda para uma pacata cidade chamada Bright Falls para finalizar sua mais detalhada obra prima. O problema? Alan sofre um apagão mental, não recorda de ter escrito nada e, pior, sua mulher desaparece em meio aos mistérios da cidade.
Se você, como eu, ignorou toda a mídia em volta do jogo para ter uma experiência repleta de surpresas e imersão, deixe-me resumi-lo de forma que não estrague qualquer sensação que você possa vir a ter. Alan Wake combina exploração e resolução de quebra-cabeças com uma mecânica de tiro diferenciada. Ao invés do bullet time de Max Payne, Alan precisa aprender a utilizar a luz para derrotar seus inimigos.
Porque, no jogo, você descobre que aqueles que oprimem a noite em Bright Falls são protegidos por um véu de sombras e só a luz pode acabar com esta proteção. O jogo se mostra extremamente inteligente em sua mecânica, pois, enquanto Alan não porta o melhor dos arsenais bélicos (algumas pistolas, uma espingarda e um rifle de caça), artifícios como tochas se transformam em verdadeiras barreiras, bombas de luz se tornam granadas e sinalizadores causam efeitos similares ao que seria uma bazuca. Notou o diferencial?
A estratégia é crucial para se sobreviver na noite de Bright Falls e não digo só na utilização da luz, mas nos próprios movimentos de Alan, que não é nenhum fuzileiro naval. O cara não sabe pular, desviar de ataques surpresas é sempre algo impreciso e a própria mira dele enquanto portando uma arma não é o que podemos chamar de boa -- todas mecânicas da imersão, você enxerga isto na animação do personagem. O mundo a sua volta já é um misto de sombras, névoa e o pouco de cidade que você pode enxergar. Os efeitos sonoros espectrais reforçam que o que te aflige está em meio ao escuro e, para completar, você é um escritor, teoricamente, indefeso. O único pensamento que te rege nessas horas é "preciso correr para a próxima área iluminada".
Alan Wake não é um jogo difícil, ele joga sempre na mesma moeda, desafiando você sem tocar nas margens da frustração. Sejam inimigos com tendências a atacarem pelas suas costas ou os quebra-cabeças que, sempre sutis, vão da simples investigação até uma sequência de pulos que, como você pode imaginar, necessitam certos esforço do protagonista. Como explicado acima, o ponto forte é a imersão e cada momento do jogo (um monólogo, o trecho de uma música ou um programa que passa na televisão) reforça sua solidão e impotência naquele universo. O mais interessante é como as páginas perdidas de seu livro se relacionam com a narrativa, você lê coisas que aconteceram, que estão acontecendo e até que vão acontecer. Sim, se você ler sobre algum temor que Alan sentirá no futuro, prepare-se, porque em alguns minutos, ou horas, isto irá acontecer.
O título da Remedy é indiscutivelmente belo em sua escuridão. O mundo noturno é devidamente obscuro com efeitos de luz exagerados, indicativos da esperança, mas sem fugir do realismo. De dia, entretanto, a imersão permanece, mas toda a beleza se esvai. A arte continua lá, Bright Falls continua singela e calma, mas você começa a notar, longe dos exageros da escuridão e da luz focada da lanterna, que a maioria das texturas não fazem jus a um jogo tão caprichado, com momentos em que ele se torna deliberadamente feio. Não estraga, seria até difícil isto acontecer, mas não há como não se esperar mais.
Tirando esta mancha, o jogo é uma combinação de narrativa, de monólogos e diálogos, certa vez palpáveis e pé no chão, certa vez beirando o subjetivo de David Lynch, com um enredo que não se importa em dar respostas, com tanto que você fique preso na sua poltrona até o fim dos créditos. Não é o que todo mundo espera, mas algo que todos devem experimentar.
Alcançando a luz no fim do túnel: Alan Wake é o próximo passo dado no gênero de horror. O jogo não dita uma tendência, mas um caminho para narrativas fortes que não queiram perder sua boa dose de ação -- é assim que o jogo é. Se você já gostou de qualquer série, literária ou de televisão que tocou o oculto, de Lost a Stephen King, que é deliberadamente homenageado na aventura, este é realmente um jogo para se mergulhar.