PRÓS
Batalhas empolgantes
Universo detalhado
Script e dublagem de primeira
Suas escolhas tem grande impacto na história
Enredo, apesar de ter um meio morno, sabe empolgar
CONTRAS
O meio da história pode ser meio parado
Visual poderia ser ainda melhor
O jogo foi bastante simplificado
Alguns loadings demorados
Dragon Age: Origins surgiu como uma espécie de recriação nostálgica dos clássicos RPGs que fizeram a adolescência de muitos no PC. Uma necessidade, tanto dos jogadores, quanto dos desenvolvedores da talentosa Bioware, que frente a demanda pela sempre disputada originalidade, se encontraram cada vez menos em relação com as raízes mitológicas do gênero: também conhecido como RPG medieval.
Só que, introduções gloriosas à parte, Dragon Age II joga fora praticamente toda essa sua herança espiritual dos grandes clássicos Baldur’s Gate e Neverwinter Nights para se tornar algo diferente, algo que eu chamaria de irmão medieval de Mass Effect. Veja bem, não estou já iniciando este texto dizendo que o jogo é ruim, até porque Mass Effect é um excelente jogo e ser colocado ao lado dele já garante muito da diversão. Não não, o que quero dizer é que, Dragon Age II é uma experiência bastante diferente do título que o originou, fato que pode causar certo desconforto àqueles que retornam ao mundo medieval esperando por uma jornada como a do primeiro.
A história da vez, que conta a vida de um humano de sobrenome Hawke (seja ele homem ou mulher), começa paralelamente ao primeiro, com a chegada dos pútridos darkspawn. Enquanto o guerreiro do primeiro jogo tem como missão colocar um fim na marcha dos seres demoníacos, o herói do segundo precisa levar sua família rumo a um local seguro, que no caso é a cidade de Kirkwall, no extremo norte do continente. O problema é que, como sempre, nem tudo é simples como poderia ser.
Hawke se vê então frente a um novo mundo, longe das facilidades do campo, onde ódio, preconceito, medo e angústia reinam sobre as pessoas. É nesse ambiente que ele se transforma de um simples fazendeiro a um verdadeiro campeão do povo, ao ponto de ser para muitos a única esperança de se existir a ordem.
Só nisso já deu para notar que a história de Dragon Age II é muito mais estruturada, o que não precisa ser entendida como limitada. Sim, foram se as possibilidades de se criar personagens de raças diferenciadas, ou mesmo a capacidade de se escolher sua origem, entretanto, a troca é até que justa, já que desta vez o jogo cobra um peso muito maior de suas atitudes, de forma que você realmente decide pelo destino dos vários personagens que cruzam seu caminho. E o mais interessante é que não são as clássicas “escolha boa ou escolha ruim” – não mesmo, o jogo faz de tudo para que o clássico preto e branco se transforme em cinza, para que você entenda o que está em jogo.
Querem exemplo? Está fácil, e não preciso nem cair em spoiler. Considerando que a família é um tema forte nesta sequência, pense comigo: E se alguém de sua preciosa família faça, sem querer, uma besteira das grandes e está em suas mãos decidir pela punição ou a absolvição dela, o que você faria? Condenaria, talvez condenando a própria vida deste ente querido, ou enfrentaria a lei e passaria por cima de todos? Pois é, é este tipo de camada que o jogo explora.
Em contra-partida, você se sente muito menos conectado com a trama do jogo. Desta vez não é como se o mundo corresse perigo e você precisa dar cabo de um maléfico vilão, mas sim a reestruturação da vida de uma pessoa. O que significa que você não viaja pelo mundo, mas sim enxerga as coisas acontecerem conforme assenta na nova região, encontrando novos personagens, organizações e rivais em potenciais. Não se assuste, não estou dizendo que o jogo não empolga, o que seria a maior das mentiras – você ainda enfrenta dragões, magos super-poderosos, demônios, raças super-desenvolvidas, entre outras coisas – só estou dizendo que as coisas demoram mais para acontecer.
E o mesmo sentimento envolve o panteão de personagens que você encontra. Morrigan, Alistair, Leliana, ainda que extremamente divertidos e interessantes, eram figurinhas carimbadas do que qualquer fantasia clássica merece. Já os que te acompanham nesta empreitada são muito mais esféricos, e assim, demoram bem mais para que você se acostume, conheça e entenda suas motivações. Fenric e seus medos, Isabella e suas motivações secretas, o sempre espertinho Varric, todos tem algo interessante à acrescentar à história, principalmente nas missões que dizem respeito as histórias pessoais deles, e você não se arrepende de perder aquelas horas a mais em pura conversa – que aliás, dependendo da relação desenvolvida, afeta a progressão do jogo inteiramente, garantindo o replay para aqueles que ficam se perguntando “E se eu tivesse feito isso?”
Como parte também de toda a nova postura, o jogo se mostra como um verdadeiro RPG de consoles, assumindo uma posição no qual ele beira o action RPG, onde o controle dos desvios e esquivas ficam por sua conta e os ataques saem na mesma hora que um botão é pressionado, claro, respeitando o tempo de carregamento de suas habilidades e magias. Todo o dinamismo a mais, por sua vez, convidou uma série de simplificações que podem não agradar os fãs mais ferrenhos do último jogo.
Um simples guerreiro, por exemplo, não mais pode empunhar duas espadas, habilidade que ficou nata do rogue, para que haja maior diferenciação das classes. A criação de poções e veneno também caiu fora, dando lugar a um sistema bem mais simples no qual você caça ingredientes e os leva para que um terceiro faça o preparo. Até mesmo o sistema de roubar, ou de coagir encontrou seu fim, frente à medida para que o jogador se concentre apenas na ação. Esqueça até mesmo a customização de seus companheiros de grupo, você pode até dar certos itens para eles e melhorias, mas nunca algo visual como no primeiro título.
São coisas que deixam a desejar? Sem dúvidas, mas que o jogo sabe fazer você fazer vista grossa devido ao tratamento caprichado do jogo para com o universo. Não falo apenas do gráfico, até porque o visual de Dragon Age II ainda fica aquém dos jogos mais belos dos sistemas atuais, mas sim todo o trabalho de dublagem, sempre muito vivo e de personalidade, e até mesmo a trilha sonora, que supera suas raízes mais típicas para desenvolver uma identidade mais forte e empolgante.
Claro, o sistema de combate, mas dinâmico e feroz também contribui para tal, a menos que você esteja jogando na versão PC, na qual o mouse se encarrega de ações demais para não haver confusão. A dificuldade do jogo também açucarou um pouco, mas nada que chegue a incomodar. Digamos que agora você tem mais tempo para apreciar os belos efeitos que acompanham as habilidades do seu personagem.
Os mais chatos também podem vir a reclamar do tempo de carregamento de uma área para outra, algo que não é tão evidente no PC (considerando que sua máquina seja de ponta), mas, como dito no início da frase, não chega a ser irritante como em certos jogos de corrida famosíssimos, ou mesmo como poderia ser no primeiro Dragon Age para Xbox 360.
De zero à herói: Dragon Age II é, ainda que em muitos pontos um passo para trás em relação a sua inspiração, é uma aventura diferente de todos os outros RPGs medievais do mercado, um que não apenas deixa você comandar guerras, mas também sentir o peso desta no seu personagem e nos entes queridos que você desenvolve ao longo da árdua jornada. Não há muito mais o que dizer que não tenha sido dito acima, ou seja – garantia de muitas (e acredite, são muitas) horas de diversão.