PRÓS
Jogabilidade única
Muito divertido
Cenários lindos
Belos gráficos
Contextualização das loucuras
Armas inspiradas
CONTRAS
Modo multiplayer fica devendo
Último ato deixa a bola cair
É curto
Humor pode não agradar a todos
Por Daniel Reininger
Hoje em dia, quando se fala em First Person Shooters, ou FPS, muitos pensam automaticamente em Call of Duty. Enquanto a série da Activision reina suprema, outras empresas se esforçam para conseguir um lugar ao sol. E o jogo de ficção científica BulletStorm é mais um desafiante... ou melhor, não exatamente. Indo contra a maré, a Epic de Gears of War e a People can Fly de Painkiller, desistiram de mostrar a realidade e seriedade da guerra. Focando no exagero e descontração, conseguiram criar um título fanfarrão e surpreendente, que apesar de estar repleto de humor barato dos anos 1980, consegue se destacar e se tornar empolgante e especial.
A frase "Kill with Skill", ou mate com habilidade, parecia ser apenas um slogan clichê e dos mais fajutos, mas na verdade cabe perfeitamente ao game. Todo um contexto foi criado para os absurdos que vemos na tela. E ao invés de exigir que o jogador seja tático e estratégico, o jogo te recompensa por fazer combos legais, como empalar um mutante em espinhos após chutá-lo ou laçar um cara com um chicote de energia chamado Leash (grande astro do jogo), puxá-lo para sua direção e depois atirar até cansar, enquanto ele voa em câmera lenta. Sim, estilo é tudo.
O roteiro é do quadrinista Rick Remender e se passa no século 26. A história gira em torno de Greyson Hunt, líder de um grupo de elite chamado Dead Echo que recebia missões de um inescrupuloso general da confederação. Só que um belo dia, eles descobrem que estão assassinando pessoas inocentes e decidem confrontar seu comandante. O que, é claro, os obriga a fugir para os confins da galáxia. O game começa alguns anos depois, no exato momento em que encontram por acaso a nave de seu ex-chefe. Decidem então fazer um ataque suicida para se vingar. Claro que não dá tão certo assim e todos caem no planeta abandonado abaixo chamado Stygia. Aos sobreviventes só resta tentarem sair vivos desse inferno, porém o fato de estarem rodeados por hordas de mutantes e gangues rivais não ajuda em nada a situação. Para complicar de vez, a chance de vingança e redenção ainda está ao seu alcance e dessa vez não vão deixar a oportunidade passar.
Essa é a motivação inicial que faz você sair dos escombros de sua nave matando tudo que encontra pela frente. Mais cedo do que imagina você encontra a Leash, uma arma inteligente de energia usada pela elite confederada. É com ela que Hunt pode laçar os inimigos e arremessá-los ao ar em câmera lenta ao longo de todo o jogo. A cada morte o equipamento avalia seu desempenho e concede pontos que podem ser usados para evoluir suas armas e comprar munição em pontos de reabastecimento espalhados pelo planeta. Obviamente, matar de jeitos diferentes concede mais pontos do que simplesmente atirar em seus alvos. Belo incentivo.
Na verdade, por mais bizarro que pareça, tudo sempre é colocado dentro de um contexto, o que acaba por fazer a coisa toda ficar aceitável e até plausível. Quer um exemplo? Como explicado por uma personagem mais para frente na história, o sistema de pontuação da Leash foi criado pelo exército para avaliar o desempenho dos soldados e prover mais recursos para os mais habilidosos e menos para os medianos. Pensando bem, dentro da loucura toda do título, acaba fazendo sentido. E para completar, esse tipo de funcionalidade incentiva o jogador a tentar coisas diferentes, pois ele sabe que terá uma recompensa real por isso.
É claro que o sistema de upgrade de armas não é algo inovador, mas em Bullestorm é algo natural que acaba sendo prazeroso e divertido. Afinal, até mesmo o arsenal foi criado com muito bom humor. Ele inclui uma arma que dispara uma corrente com granadas, um rifle sniper que permite ao jogador controlar o movimento da bala, um lança-granadas com bombas do tamanho de bolas de basquete, entre outras.
Infelizmente a inteligência artificial dos inimigos não é das melhores, o sistema de cobertura é bem simplista e as fases diretas e retas. Só que os combos, em conjunto com um tiroteio de responsa, armas potentes e diferentes tira o jogo da mesmice e o coloca em lugar de destaque. Principalmente por momentos épicos da história, como a fuga de uma roda de mineração gigante, o colapso de um prédio ou o aparecimento de um monstro gigante no melhor estilo Godzilla no meio da cidade. Novamente vale frisar que a criação de uma explicação decente para cada detalhe faz toda aquela viagem se tornar algo palpável.
E é desse jeito leve, descontraído e com bela execução que tudo vai muito bem até o final. Stygia é lindo, com um design único e marcante, a história agrada, os eventos são variados e divertidos, fica um pouco mais repetitivo nos últimos acts, é verdade, mas nada que tire o mérito e a graça do game. O único problema realmente sério é o ato final. Não vou dar Spoilers, no entanto a história podia ter acabado em grande estilo, o que não acontece. A escolha duvidosa da People Can Fly de deixar um gancho aberto para uma possível continuação não caiu bem. Acaba tirando um pouco o gosto de todas aquelas horas de diversão. Mas só um pouquinho.
De qualquer forma, o fim da campanha não é motivo para abandonar Bulletstorm. Como todo shooter que se preze o modo online está presente, todavia não conta com os modos que estamos acostumados, como Deathmatch. Por algum motivo o estúdio decidiu não incluir partidas competitivas, nos deixando apenas um modo cooperativo para times com até quatro pessoas chamado Anarchy Mode. Similar ao modo Horde de Gears of War 2, nele os jogadores enfrentam ondas de inimigos cada vez mais fortes. Ao final, quem tiver a maior pontuação vence. Simples assim e muito pouco para o potencial. O Echo mode é outra interessante inclusão com o seu ranking online no qual o jogador atravessa as fases da campanha sem se preocupar com a história. As fases aqui são menores e para avançar é preciso atingir uma quantidade determinada de pontos. Tudo isso podia ter recebido um pouco mais de atenção, mas mesmo assim prolonga um pouco a vida do jogo, cuja campanha termina em apenas 6 horas.
A parte audiovisual não deixa a desejar. Como comentado antes, Stygia é bem desenhada e os gráficos criados com a engine Unreal 3 são magníficos (pra variar). O jogo é realmente bonito e inspirado visualmente, com ótimos efeitos de luz. As animações são belas e os cenários grandiosos e cheios de vida. A trilha sonora por sua vez é fraca e acaba caindo nos clichês básicos do gênero. Pelo menos os sons ambientes receberam bastante atenção e a dublagem está bem feita. Claro que nem sempre o que os personagens falam vale a pena ser ouvido, porém eu já tinha avisado sobre o humor farofento do game logo no início deste texto.
Diversão e exagero fazem de Bullestorm uma experiência agradável que garante muitas horas de prazer. É bom ver um shooter que retorna a um tom menos sério, como nos anos pré-Call of Duty, e ainda por cima apresenta uma jogabilidade diferenciada. Contextualizando as coisas mais bizarras, a história vai bem até certo ponto, mas se perde no final, tanto pela repetição, quanto pelo anticlímax. Se você suportar o humor besta, certamente vai curtir cada momento deste grande título. Fãs do gênero ou curiosos precisam ao menos experimentar.