PRÓS
-- Detalhado até o último pixel
-- Narrativa poderosa e divertida de acompanhar
-- Sistema de batalha continua simples e eficaz
-- Sonorização soberba
-- Sistema de imposição de medo continua a surpreender
-- Excelente caracterização de clássicos vilões
CONTRAS
-- Chefes poderiam ser (um pouco) mais difíceis
-- A presença do Online Pass em forma da Mulher-Gato
Por Rodrigo Brasiliense
Até onde vão jogos do Morcegão, o que poderia ser melhor do que vasculhar as alturas do Sanatório Arkham chutando as bundas mais psicóticas que Gotham City já viu? Não, se você respondeu “dirigir o Batmóvel”, bom, acredite, eu entendo você, meu amigo, mas essa opção não estava na lista de resposta. O certo aqui é dizer: “Vasculhar as alturas da própria Gotham City chutando bundas!”.
Certo, charadas a parte (sacaram?), a cena de Batman: Arkham City é justamente esta: Tudo foi feito com um único propósito: superar a primeira obra. E o pessoal da Rocksteady foi muito feliz nisto. Desta vez a aventura é ainda mais pessoal do que antes, e você começa na pele do próprio Bruce Wayne em uma campanha para que a chamada Arkham City, uma porção da cidade de Gotham abandonada para abrigar o acúmulo crescente de vagabundos, seja fechada.
Atacado pelas costas, o bilionário se vê capturado como mais um dos ditos “criminosos”, e à partir daí deve, não apenas escapar, mas buscar seus equipamentos para que ele possa agir como o temido Batman.
O problema de falar de um jogo como Arkham City, é que descrevê-lo é fácil,e ao mesmo tempo difícil. Fácil porque não existe muito o que xingar, entende? A mecânica, como já dito, é a do primeiro jogo, porém, polida, melhorada e expandida de forma que tudo aquilo que você imaginou que faltou na primeira aventura do morcego, acredite, está lá (menos o batmóvel, sério, não insista... já conversamos sobre isto).
É difícil também porque o jogo é repleto de mínimos detalhes, que você não quer que o jogador perca, mas ao mesmo tempo, não pode arriscar ficar falando muito para não estragar a experiência e o descobrimento de alguém. Enfim, é a vida. O que você precisa entender de verdade vem abaixo: A qualidade extrema do jogo.
O que no primeiro já era uma ilha deveras grandinha, neste é uma porção inteira da cidade, o que inclui um tribunal abandonado, uma linha de metrô, um museu acabado, uma ex-delegacia de polícia, um composto industrial, um edifício em decomposição... bom, acho que deu para entender, não? A franquia Arkham do Batman sempre se focou em uma jogabilidade inspirada em partes no clássico Metroid, e sendo assim, esta versão não apenas capricha nas razões para você viajar pela variedade dos cenários, mas também faz questão de que você fique boquiaberto enquanto tal.
Cada detalhe conta, os sussurros no escuro, as pichações de protesto, a destruição contínua de cada área conforme o tempo passa e até mesmo as mudanças no herói protagonista combate após combate. E quando você domina então o timing entre os saltos e os disparos do “grappling hook” a impressão que se tem é de realmente estar vivendo um dos lendários quadrinhos. Em geral o trabalho de imersão é um dos mais impressionantes da temporada.
Você, assim como o Batman, nunca perde o foco na história, não interessa o que vem pela frente. Podem ser as inúmeras charadas penduradas pelos blocos da cidade, os trejeitos e ambições de alguns dos vilões (que não vamos falar os respectivos nomes para manter o suspense) ou a forma gradual como que o Morcego aprende habilidades novas e todo seu repertório. O jogo é aberto, mas você nunca se sente realmente perdido e isto não apenas por causa do competente sistema de mapeamento, mas pelo jeito como a narrativa se mantém sempre coesa e precisa.
O que não faz jus a toda a construção climática, é a maioria dos encontros com os todo-poderosos vilões. Sério, é fácil, e a impressão que temos é que o Batman está em um nível adiante já. Não que chegue a ser chato, isso nunca, mas um pouco mais de sofrimento não faz mal a ninguém, principalmente quando tratamos de ícones tão fortes da história dos quadrinhos. Resumindo, fica boquejando por causa disso também seria besteira, principalmente frente um jogo que faz tantas coisas certas, mas não deixa de ser algo que aquele jogador que for ter tempo de jogar apenas no normal vá sentir falta.
Aliás, falando em sentir falta, quem comprar o jogo usado, alugar ou pegar emprestado de uma amigo vai sentir falta de certo toque felino na aventura. Sim, a moda do “online pass” pegou e ela se materializa em Arkham City, um jogo que nem multiplayer tem, como a ausência das porções envolvendo a Mulher-Gato. Em teoria você não perde nada, a história faz todo o sentido e o final é o mesmo. A questão é: Quem gosta de perder algo? Ou seja, você perde as partes estreladas por Selina Kyle e toda a sua ação, que difere do Batman em mais de uma forma. Ela é mais espalhafatosa, veloz, menos decisiva, entretanto, acrobática de um jeito que qualquer um desacredita.
Talvez decisões como estas sejam minha única reclamação real que eu tenho para com o jogo, por que de resto, como dito parágrafos acima, a ação toda é bem fechada e atmosférica, mais ainda do que em Arkham Asylum. Isto porque, desta vez, além de abusar das artes marciais extremas do herói e seus devidos acessórios, o que inclui o sempre impressionante detective vision (que além de funcionar como visão noturna, infra-vermelho, mede até o batimento cardíaco das pessoas a sua volta), desta vez temos a chance de colocar em ação um pouco do intelecto do herói, com alguns quebra-cabeças divertidos de se resolver.
Mas a maior graça do jogo ainda é o que fez o nome da franquia: a forma como você usa a maior arma do cavaleiro das trevas -- o medo. Continua sendo simplesmente genial o jeito como você pode quebrar o psicológico dos meliantes que povoam Arkham City e até isto vai do seu estilo. Quando eles andam em grupo, você pode se livrar de um por um aos poucos, largando os corpos em cantos escuros, até que os inimigos acreditam estar enfrentando o próprio demônio encarnado.
Melhor ainda, com o novo acessório que possibilita você desativar a arma de fogo dos capangas, você pode simplesmente cair dos céus na frente deste e assistir tentativas frustradas de fuzilamento por parte do infeliz. Mais divertido ainda é fazer outros capangas presenciarem o ato. É interessante até mesmo acompanhar os batimentos cardíacos dos expectadores. No final, nem mesmo os inimigos que estão com as armas em pleno funcionamento conseguem atirar em você tamanho é o pânico.
O trabalho de sonorização que antes já era estupendo também retorna, ainda melhor, mais completo e profundo, englobando não só aquela realidade louca de Arkham City, mas o resto da cidade a volta, que segue com sua vida sem mesmo saber o que acontece em um local tão próximo. A dublagem dos personagens também da aquele toque que falta na caracterização. Os novos vilões em si já impressionam, mas Batman e o Coringa caem praticamente como velhos amigos, do tipo que você já até espera determinado tipo de resposta. É bom assim, mas neste ponto do texto, não dava para esperar nada muito diferente, certo?
Fazendo justiça à toda a espera: Falar de Batman: Arkham City e dizer “ah, se você é fã do Homem-Morcego, este jogo, ainda mais que seu antecessor, é tudo que você sempre esperou” seria uma falta de respeito com a produção. Não é mais questão de ser fã ou não do herói, o jogo é bom e ponto. Visual, narrativa, sonorização, todos aqueles grandes e mínimos detalhes que vão se desembrulhando conforme você mergulha nas horas de jogo, está tudo lá e com um capricho que poucos sabem como reter nesta época de massificação. Dizer isto sim é fazer jus. Para comprar e revisitar muitas vezes.