PRÓS
Sim, um jogo de filme que presta
Visual simples e carismático
Dificuldade na medida certa
Narrativa divertida de se acompanhar
CONTRAS
O combate podia ser mais variado
Vamos à ironia: Enquanto nossos poderosos consoles atuais ainda sofrem um bocado para adaptar grandes produções do cinema para jogos igualmente divertidos, portáteis como o Nintendo DS já superaram tal barreira algumas vezes, sobretudo, no que diz respeito aos jogos da Disney. Prince Caspian já havia tentado algo interessante e mereceu condecoração aqui no GameStart, porém, Alice in Wonderland foi bem mais longe.
A trama é a que todo mundo já deve ter ouvido falar, apenas com um novo tempero para pegar novos e velhos de surpresa. Nela, Alice acaba escorregando pela toca do coelho e vai parar na chamada Underland, uma terra sombria ameaçada pela tirania e a opressão da Rainha Vermelha e do monstruoso Jabberwocky. Assim, a missão da loirinha acaba sendo encontrar a lendária Espada Vorpal, que colocaria os vilões em seus devidos lugares, leia-se, na cova.
De tudo que o jogo poderia aproveitar do seu irmão cinematográfico, ele pega apenas o descrito acima, o background. A desenvolvedora francesa, Etranges Libellules, optou pelo caminho mais difícil e criou tudo do zero. Uma identidade visual, uma jogabilidade diferenciada e uma trilha sonora adequada que se aproxima da do filme sem copiá-la literalmente. Não preciso dizer que só a atitude já merece muitos pontos, porém, espere até eu falar do resultado.
O que se deu então foi um jogo único, de visual simples no qual os cenários e os personagens parecem pincelados em nanquim, enquanto os fundos se destacam como molduras de uma determinada cor. A combinação dá uma sensação do que seriam gravuras de livro em movimento, o que casa diretamente com as raízes fabulosas do título e dá muito mais vida para a ação bidimensional proposta.
Então, falando em proposta, o jogo é muito mais inteligente do que qualquer cético esperaria de uma adaptação de cinema voltada para os mais novos. Nele você controla Alice e, embora ela seja a estrela, quem faz todo o trabalho é o panteão de amigos antropomórficos que ela faz em Underland: do coelho McTwisp, ao famosíssimo gato Chessur e o alegre Chapeleiro Maluco, que não é estrelinha como no filme, mas igualmente importante para a progressão do jogo.
Não só ele, claro, mas todos os personagens que você encontra pela frente. O coração da ação é justamente a manipulação da habilidade de cada um para que Alice possa viajar pelos cenários. Coisas como utilizar o poder de controle do tempo do Coelho Branco para que uma árvore cresça rapidamente e forme uma passagem; ou Chessur, que pode fazer objetos desaparecerem num passe de mágica. Cada novo membro da sua equipe oferece novas possibilidades, com direito até a novas habilidades conforme você progride.
O melhor é que nada no jogo chega a ser realmente difícil, o que não quer dizer que ele entregue as soluções de mão beijada, uma coisa que jogos infantis tendem a fazer e muito ultimamente. Quem não lembra dos bons tempos de Pocahontas no Mega Drive, que aliás, tinha um desafio na mesma natureza deste? Pois então, não há porque subestimar os mais novos e Alice in Wonderland percebeu isso a ponto de criar um jogo acessível e inteligente o suficiente para desafiar de diferentes formas todas as idades.
Ele até tenta um combate, algo derivado do clássico Ico, no qual as cartas-soldados da Rainha Vermelha surgem sempre que você deixa Alice sozinha por muito tempo. Tais porções só não divertem tanto quanto o resto do jogo por faltar variação. Derrotar as cartas é sempre igual, com cortes e toques da sua stylus, tornando tudo tedioso depois de alguns encontros violentos. Há ainda alguns inimigos que não seguem esta lei a risca, obrigando você a se esquivar e dosar suas investidas, mas não chega a ser o suficiente para dizer que o combate adiciona à experiência.
Longe de ser um sonho: Alice in Wonderland é uma adaptação mais que vitoriosa de uma produção cinematográfica. É um jogo que se coloca em pé com seus próprios méritos, seja por sua narrativa inocente, seu visual único e marcante, ou claro, a jogabilidade variada e imaginativa que consegue divertir jogadores de todas as idades. Quando você trabalha há tempos nesse ramo, um caso como este é uma das melhores coisas que podem acontecer no seu dia-a-dia, quando uma obra que não prometia nada impressiona tanto. Se ao menos todos desenvolvedores fossem tão longe com suas licenças, né Ubisoft?